PALMEIRAS

Corinthians e Palmeiras | Oswaldo Brandão, o técnico que supera as rivalidades e se tornou ídolo em times de SP

Corinthians e Palmeiras | Oswaldo Brandão, o técnico que supera as rivalidades e se tornou ídolo em times de SP
Lima Duarte invade o quarto do hotel e procura desesperado por um jogador do Palmeiras, que estaria nos braços de Marisa Orth às vésperas de um decisivo clássico contra o Corinthians. A personagem de Marisa, que teria sido infiltrada pelos corintianos na concentração alviverde, finge se assustar e ameaça: "Eu vou chamar a segurança!". Lima…

Lima Duarte invade o quarto do hotel e procura desesperado por um jogador do Palmeiras, que estaria nos braços de Marisa Orth às vésperas de um decisivo clássico contra o Corinthians. A personagem de Marisa, que teria sido infiltrada pelos corintianos na concentração alviverde, finge se assustar e ameaça: “Eu vou chamar a segurança!”. Lima Duarte interpreta o técnico Oswaldo Brandão, que não encontra o craque palmeirense na cama. Fica sem jeito e, se desculpando, balbucia:

Minha senhora, a senhora não sabe o que é um Palmeiras e Corinthians”.

A cena do filme “Boleiros”, de Ugo Giorgetti, é a definição perfeita do maior clássico do futebol paulista: em Corinthians x Palmeiras, como o de amanhã (4), no primeiro jogo da final do Campeonato Paulista de 2020, vale tudo. E a escolha do treinador gaúcho tem explicação lógica. Ninguém entendeu mais o dérbi paulistano quanto ele. Oswaldo Brandão é o técnico que mais vezes dirigiu as duas equipes: foram 435 jogos pelo alvinegro e 580 pelo verde e branco. Ainda soma três títulos brasileiros pelo Palmeiras (1960, 1972 e 1973) e foi o único técnico a ser campeão pelo Corinthians entre 1954 e 1977.

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Oswaldo Brandão começou a carreira no Sul e veio para o Palmeiras como jogador. Ficou no Palestra de 1942 a 1945. Como torcedor, Ugo também sabia que Brandão sapecou tanto alvinegros quanto alviverdes, conquistando títulos históricos para os dois lados: são três títulos brasileiros e quatro paulistas (1947, 1959, 1972 e 1974) pelo Palmeiras e dois Paulistas (1954 e 1977) e dois Rio-São Paulo (1954 e 1966 — que teve o título dividido por quatro equipes).

“Claro que o personagem em que eu me inspirei é o Oswaldo Brandão. Ele era um grande líder no vestiário. Tinha os jogadores nas mãos. Chamava o Ademir da Guia de meu 10. Mas o Lima Duarte acrescentou uns tiques do Telê Santana”, explica Giorgetti, justificando o palitinho que Lima Duarte mastiga em boa parte do episódio em que participa no filme “Boleiros”.

O jornalista e pesquisador Celso Unzelte concorda que ninguém mais que ele conhecia os caminhos de um Palmeiras x Corinthians. O Paulistão de 1974, disputado entre os rivais, é um exemplo clássico de como o técnico era capaz de ganhar jogo. A taça ficou com o Palmeiras, time de Brandão. “Até hoje se comenta que o segundo jogo da decisão de 1974 foi para o Morumbi por insistência do Brandão. O gramado estava novo, muito fofo, e ele sabia que facilitaria para o Palmeiras e prejudicaria um time afoito e sedento da conquista de um título como o Corinthians, que ele conhecia tão bem” — naquele Paulistão, o Corinthians completou 20 anos sem conquistar o torneio estadual.

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Rubens Ribeiro, autor da obra “O Caminho da Bola”, que traz jogo a jogo do Campeonato Paulista de 1902 a 2008, conta que o primeiro dérbi de Brandão ocorreu dentro das quatro linhas: Palmeiras 2 x 0 Corinthians, no ano de 1943. “O Pacaembu estava lotado e havia mais de 63 mil pagantes no local. E os gols do Palmeiras foram marcados por Lima. No segundo turno de 1943, nova vitória do Palmeiras com Oswaldo Brandão em campo: 3 a 1”, conta Ribeiro.

Está na página 520 do primeiro dos três volumes da obra: O Corinthians formou com Rato, Graham Bell e Begliomini, Jango, Brandão e Dino, Jerônimo, Servílio, Milani, Geraldino e Hércules. Notem que o Corinthians tinha o seu Brandão. Mas o nosso personagem é outro e jogava pelo Palmeiras. O Palmeiras tinha Oberdan, Osvaldo e Junqueira, Brandão (o nosso), Og Moreira e Gengo, Ministrinho, Lima, Caxambu, Villadôniga e Jorginho.

Em compensação, já como técnico alviverde, Brandão perde os dois primeiros jogos em 1946: 1 a 0, em 29 de junho; e 4 a 3, no dia 20 de outubro.

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O técnico chamava a atenção de todos os clubes por sua competência. Passou por Santos, por Portuguesa, São Paulo e outros. No vasto currículo, uma lacuna: Brandão passou um período longe dos gramados, em 1954, quando foi resgatado pelos corintianos. Oswaldo Brandão estaria trabalhando de bilheteiro no Cine Santa Helena, um importante cinema da época, na Praça da Sé, em São Paulo.

“Chegaram a dizer que ele trabalhou até de lanterninha, mas eu creio que ele era o gerente do cinema, porque a empresa pertencia a seu sogro. E foi ali no Santa Helena que o presidente Alfredo Inácio Trindade foi buscar o Brandão para treinar o Corinthians”, explica Unzelte.

O técnico do Corinthians era Rato, que deixou a equipe às vésperas da decisão do torneio Rio-São Paulo, contra o Palmeiras. Com Brandão no banco, o Corinthians ganhou de 1 a 0. Com apenas um jogo, o da estreia, ele foi campeão. Nascia uma lenda alvinegra, imagem que só seria reforçada pela próxima conquista: a do Campeonato Paulista do IV Centenário, contra o Palmeiras.

“O Palmeiras resolveu buscar ajuda de forças extraterrenas, contratou um pai de santo e ele orientou a direção do clube a colocar o time em campo com camisas azuis”, recorda Rubens Ribeiro. “E teve mais: o presidente engessou a perna e deu duas voltas no campo do Pacaembu, por orientação da entidade”. Não adiantou nada e o Corinthians tornou-se campeão dos Centenários. Na passagem, estabeleceu um recorde corintiano de permanência: ficou no Parque São Jorge de 1954 a 1957.

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Nas mudanças de rumo que o futebol toma, Brandão voltou ao Palmeiras em uma época de jejum: em 1958, o time não vencia o Corinthians pelo Paulistão desde 1951. Mas com Brandão, tudo mudaria. “Na sala da minha casa, tínhamos um rádio daqueles grandes, com vitrola”, relembra Ugo Giorgetti. “Acho que a narração era do Pedro Luiz, não tenho certeza. Mas o que eu sei é que depois de sete anos o Palmeiras venceu. O clube tinha contratado um jogador chamado Paulinho, do Flamengo. E ele fez três gols. O outro foi do Julinho Botelho. Foi uma grande alegria: 4 a 0. Aquilo me lavou a alma!”

Depois do supercampeonato de 1959, contra o Santos, o treinador ainda foi ser ídolo no Independiente, da Argentina. Voltou ao Corinthians em 64. E, em um dérbi, quis tirar o time de campo contra o Palmeiras porque ficou louco da vida com uma marcação do juiz. “Mas não abandonou o campo”, lembra Unzelte.

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Em 1971, Oswaldo Brandão estava de volta ao Palmeiras. Foi na década de 70 que o médio-volante Dudu virou uma espécie de braço direito do treinador. O jogador, que já vinha há muitos anos jogando os dérbis, aprendeu mais um pouco com o Mestre Brandão. “No jogo, quando ele gritava com o Eurico ou com o Zeca, eu já sabia que era para eu orientar os dois para decidir mais rapidamente as jogadas. Hoje, um técnico tem seis ou sete auxiliares. Na época dele, era ele e o preparador físico. E o seu Brandão era completo. Sozinho, comandava tudo, toda a equipe. Tinha comando no vestiário, era psicólogo, montava a equipe e dava padrão de jogo, dava continuidade”, explica.

Um dos segredos do Palmeiras da Segunda Academia, campeão brasileiro de 1972 e 1973, era a amizade cultivada por Brandão entre os jogadores. “Em 1972, ganhamos tudo o que disputamos e eu lembro que o Brandão levou todo o grupo com a família para passar dez dias no Grande Hotel em Lindoia. Ali, ele juntou de vez o grupo que durou cinco anos. E que inclusive ganhou aquele título de 1974”.

Dudu fala do campeonato paulista de 1974, quando os palmeirenses enfrentaram 100 mil corintianos no Morumbi e, com a vitória por 1 a 0, manteve o rival na fila de títulos que começara em 1954 — justamente o título do IV Centenário de Brandão. “Nós já sabíamos o que era um clássico daqueles, mas o seu Brandão enxergava na frente. E eu não esqueço aquele Palmeiras e Corinthians. Primeiro pelo título, depois porque sempre nos dérbis a gente ganhava bicho dobrado e depois porque uma vitória como aquela levantava a moral de todo mundo. Mas não me esqueço daquela noite também, porque levei uma bolada na fronte e deixei o campo desmaiado”.

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E como as idas e vindas não paravam, Oswaldo Brandão retornou ao Corinthians. Era uma fase difícil, o clube não ganhava o Campeonato Paulista há 23 anos. E, em família, Brandão sofria com a doença que acometia seu filho. “Eu lembro que, muitas vezes, ele saía da casa dele para ir atender algum jogador que estava com problema familiar. Mesmo tendo um problema muito maior dentro de sua própria casa. Ele foi um ser iluminado”, conta Basílio, símbolo do título de 1977.

“Ele tinha o controle de tudo, com muita disciplina. Inclusive a diretoria. Todos o respeitavam, não só por seu conhecimento do futebol, mas por seu comportamento. Muitas vezes, ele dizia para pra gente que precisava ir até a ‘casinha’ dele. E todos nós já sabíamos que ele ia levar ajuda na Vila Prudente. Ele sempre dizia: como ganho dinheiro, vou dividir com os mais necessitados. Aquilo nos enchia de orgulho e nos dava força”.

Oswaldo Brandão, por sua experiência própria no dérbi, procurava acalmar os jogadores. “Antes dos jogos com o Palmeiras, ele passava calma e confiança. Pedia para jogarmos, sem entrar no nervosismo natural daquela partida tão especial. Uma rivalidade que já existia muito antes de a gente vir ao mundo. Eu mesmo fiz um gol contra o Palmeiras, fiz um a zero no Leão, mas eles viraram, acho que com gols do Jorge Mendonça e do Toninho. Foi 4 a 2 para eles”.

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Espírita, Brandão distribuía a alguns jogadores os livros de Allan Kardec. “Mas não era nada forçado. Era para alguns que se interessavam. Seu Brandão veio ao mundo para ajudar. Ele era uma pessoa iluminada. Tinha uma percepção muito grande. Buscava a evolução através da leitura e da religião. Ele via a aura das pessoas mesmo sem conhecê-las”, ressalta Basílio.

Não foi contra o Palmeiras, mas na decisão do campeonato paulista de 1977 contra a Ponte Preta, que Basílio passou uma das experiências mais emocionantes de sua vida. “No dia do terceiro jogo, eu e o Zé Maria estávamos em tratamento. Lembro como se fosse agora, era o dia 13 de outubro. Nossa contusão não era simples. Então o seu Brandão entrou na sala onde estávamos e disse que tinha recebido uma mensagem, uma premonição”.

Vocês vão jogar esta noite, não vão passar por avaliação médica. Não precisa. Vocês vão jogar e não vão sentir nada. Não vão sentir a contusão. Jogo normal o tempo todo. E você neguinho, disse ele se dirigindo a mim, você mesmo vai fazer o gol do título”.

Não era um dérbi. Mas foi o que aconteceu.

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Oswaldo Brandão morreu em 1989. Mas realizou outro milagre em 2009. As diretorias de Corinthians e Palmeiras, que vivem brigando, concordaram com a disputa de um troféu com o nome do técnico. Quem vencesse mais dérbis naquele ano ficaria com a taça. Depois de um empate em 1 a 1, uma vitória por 3 a 0 para o Palmeiras e um novo empate em 2 a 2, a Oswaldo Brandão foi parar no salão alviverde de troféus.

Apesar da conquista, não dá para afirmar que Brandão era totalmente palmeirense. Nem totalmente corintiano.

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Apesar do sucesso nos dois principais clubes de São Paulo, Osvaldo Brandão nunca se firmou na seleção brasileira. Para Celso Unzelte, porque tinha conflitos com a imprensa carioca, que o julgava “um caipirão”.

Diziam que ele comia macarrão com arroz e feijão, coisas do tipo. Saiu a última vez da seleção porque escalou Vladimir, na Colômbia, e a imprensa carioca queria o Marinho Chagas”.

Dudu exalta que, apesar de não ter se firmado no comando do Brasil, teve grande papel no time em suas passagens, entre 55 e 57; em 65 e entre 75 e 77. “O seu Brandão foi o técnico que melhor soube disputar o campeonato paulista. Melhor dizendo: foi um técnico completo, brilhou na Argentina e dirigiu a seleção brasileira nas eliminatórias de 58 e também esteve no time de 1976, que ganhou o Torneio do Bicentenário nos Estados Unidos”, conta.

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