LIBERTADORES

Com Diego Souza e Thiago Neves, Renato, o técnico, pressiona Renato, o mito

Com Diego Souza e Thiago Neves, Renato, o técnico, pressiona Renato, o mito
Já eram 37 minutos do segundo tempo da final da Libertadores quando Jael tocou de cabeça para Cícero fazer o gol da vitória do Grêmio sobre o Lanús, em Porto Alegre. Ainda restava o jogo de volta, o da confirmação do título, na Argentina, mas o mito da recuperação de jogadores por Renato Portaluppi estava…

Já eram 37 minutos do segundo tempo da final da Libertadores quando Jael tocou de cabeça para Cícero fazer o gol da vitória do Grêmio sobre o Lanús, em Porto Alegre. Ainda restava o jogo de volta, o da confirmação do título, na Argentina, mas o mito da recuperação de jogadores por Renato Portaluppi estava consolidado naquele final de 2017.

Cícero chegou em setembro após rescindir com o São Paulo. Havia jogado só duas partidas naquele semestre, vindo do banco do time do Morumbi, mas o suficiente para estourar o limite de jogos por uma equipe no Brasileiro. Renato bancou seu ex-jogador no Fluminense apenas para a Libertadores, o suficiente para atuar os quatro jogos finais da Copa.

Jael tinha sido atleta de Renato no Bahia. Agora era reserva de Barrios e chegava ali aos 17 jogos na temporada. Nenhum gol marcado. Longe de ser unanimidade com a torcida, era bancado pelo treinador. “Eu consigo recuperar jogadores, eu sei fazer isso”, disse Renato quando da contratação do atacante mato-grossense.

E sai o gol. “Cícero é o nome dele. Valeu a mão do Renato!”, berrou o narrador Galvão Bueno, com o comentarista Casagrande ressaltando que o lance era o exemplo bem acabado do porquê da chegada do herói improvável a pedido do treinador. O UOL estampou: “Cascudos de Renato decidem”. Esta Trivela se valeu do texto “Cícero, Jael e o destino improvável que vira óbvio ululante em uma final”. Quem poderia duvidar de Renato?

A marca

Protegido por seu discurso boleiro, Renato montou um time marcante, vitorioso e com momentos de ótimo futebol enquanto acumulava histórias do tipo naqueles títulos pelo Grêmio. Ao invés de seguir a tendência do debate pós-7 a 1, Renato ironizava a influência do futebol europeu ou dos termos das apostilas. Quando voltou ao clube, em 2016, após mais de dois anos parado, foi o cara que entendeu o jogo de Douglas e ganhou a Copa do Brasil cuja entrevista de campeão foi marcante: “Quem precisa aprender, estuda. Quem não precisa vai para praia. Futebol é como andar de bicicleta. Quem sabe, sabe. Quem não sabe, vai estudar”.

Para o ano seguinte, bancou os laterais Leonardo Moura, aos 38 anos, que vinha de uma temporada no Santa Cruz, e Bruno Cortês, chegando aos 30, depois de algumas temporadas emprestado pelo São Paulo. Também viu bons momentos de Lucas Barrios, que deixava o Palmeiras após perder espaço no time paulista, e Fernandinho, que estava cedido ao Flamengo e não era das prioridades do antigo treinador gremista, Roger Machado.

Claro que os sucessos, em caso de títulos, são mais lembrados que as passagens que não funcionaram tão bem. No início de 2018, Maicossuel chegava com status de candidato a novo recuperado por Renato – em julho já era emprestado. Hernane Brocador foi outro apresentado no mesmo período, mas depois de poucos jogos foi parar no time de aspirantes e deixou o clube ainda no meio da temporada. Foi por ali também que desembarcou outro atacante, André, talvez a grande insistência de Renato nos últimos dois anos e que, apesar de importante contribuição em alguns jogos, nunca pareceu alcançar a exigência de um time deste patamar nos principais duelos, nem tem um gol à la Cícero eternizado numa partida marcante. Agora, pode sair.

De toda forma, sendo pedidos pessoais à diretoria ou não, a marca de ser um especialista em recuperar jogadores está estampada na figura de Renato. Também não funcionou muito bem com Marinho, que durou pouco no Grêmio depois de um ano e meio tímido na China, nem com Diego Tardelli, de passagem discreta e cobiçado por muitos após quatro temporadas no mesmo país.

2020

Na gangorra das emoções do futebol brasileiro, Renato acordou cotado para a seleção brasileira e foi dormir questionado após a goleada para o Flamengo na Libertadores. Com a confiança de sempre e o mesmo discurso de valorizar o próprio trabalho e o elenco que tem, recuperou o Grêmio no Brasileiro e abriu 2020 com bons reforços: Vanderlei para o gol, Victor Ferraz, Orejuela e Caio Henrique para as laterais, além de Lucas Silva para o meio.

Mas foi agora, na última semana de janeiro e já com o Campeonato Gaúcho em andamento, que chegaram as duas contratações com selo Renato Portaluppi de bancar desconfianças: Thiago Neves, quase 35, rebaixado com o Cruzeiro, e Diego Souza, 34 e meio, autor de 9 gols na temporada pelo Botafogo, são os novos reencontros do treinador com sua marca.

“Aqui comigo ele vai jogar”, já falou Renato ainda antes da confirmação da chegada de Thiago. O meia-atacante viveu um ano complicado, assim como todo o elenco cruzeirense, com o acréscimo extra-campo de ter sido vinculado à saída de Rogério Ceni e depois afastado pela diretoria por ir a uma festa no Mineirão em meio à luta do time contra o rebaixamento. Foi jogador de Renato no Fluminense, de quem é vizinho no Rio, em 2007-08.

Se um se reencontra com o comandante, o outro revê a velha casa. Diego volta ao Grêmio depois de 12 anos em que jogou por 10 clubes. Pelo Sport, quando virou centroavante, chegou à seleção brasileira, mas não caiu nas graças do São Paulo nem do Botafogo. Quando muita gente acreditava que não haveria mais espaço na primeira prateleira do futebol nacional, jogará novamente uma Libertadores por um dos melhores elencos do país. “Quando trouxemos o Jael, criticaram e ele nos ajudou bastante. Precisamos de um jogador com essa característica, principalmente na Libertadores”.

A referência de Renato faz sentido, ainda que a aposta em remar contra a maré da carreira de jogadores experientes chame cada vez mais a atenção e, portanto, cobrança. Com nomes desse tamanho então… mais ainda: se Thiago e Diego não conseguirem jogar, a conta vai cair sobre o treinador.

Isso posto, o maior desafio é que Renato, o técnico, consiga mediar a relação com Renato, o mito, principalmente para que os “cascudos” não barrem o crescimento de jovens em potencial (como Jean Pyerre) nem apenas alimentem a fama por puro ego do personagem. A base é boa e os primeiros reforços deram o tom de um elenco mais forte, ainda que a atenção estará voltada para a recuperação dos rostos famosos, com Renato chamando para si toda a responsabilidade de quem tem uma estátua no local de trabalho. É o técnico, mas também a homenagem da escultura cravada na Arena, bancando os reforços da vez.

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